Minha mesa tem nome

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Minha mesa tem nome
Por Maria Leci Queiroz

Nos últimos dias tenho sido despertada para falar sobre a importância da família ao redor da mesa e do fortalecimento dos vínculos familiares que podem acontecer na hora das refeições. A comida pode ser um meio para nutrir o corpo, oxigenar as relações, fortalecer a identidade e facilitar as escolhas da vida.

Por mais que uma mesa bem desenhada de alimentos diversos sensibilize o paladar pelo cheiro e pelo sentido da visão, não haverá uma “mesa posta” se as pessoas no entorno dela não arrumarem seus corações e sentimentos para a construção de vínculos e afetos.

Neste sentido, na receita de hoje vamos falar sobre um ingrediente chamado amor, que não é apenas um sentimento, mas um jeito de ser.

Falo dessa virtude lembrando da minha mãe, Rita, que tinha a cara e o cheiro do amor. Muitos irmãos e amigos a chamavam carinhosamente de Ritinha ou madrinha. Ela era uma mulher pequena, mas de coração grande, solidário, sempre disposto a servir pessoas carentes. Esse seu jeito caridoso de ser se identifica com o alimento que ela costumava ofertar a essas pessoas: o famoso “caldo de caridade”, que, na minha concepção, era o melhor do mundo.

À vista disso, considero que o amor vem acompanhado de um outro sentimento: a compaixão. Lembro-me bem de uma senhora, catadora de lixo, que era muito discriminada pela garotada do bairro. Eles a chamavam de: “papel cagado”, porém, eu e meus irmãos, nutridos pelo ingrediente do amor, que fora alimentado pelos meus pais, a chamávamos pelo seu nome: Dona Jandira, pois ela era uma senhora de vida simples, mas tinha identidade. Além disso, ela era uma cuidadora da natureza: mexia com sustentabilidade e higiene, sendo uma Greta, daquela época. E, portanto, era uma grande alegria tê-la como convidada a sentar-se à mesa da nossa família. Ao adentrar em nossa casa, ela deixava seu saco de lixo no alpendre e vinha até a mesa degustar das delícias ali postas: tapioca, café com leite, pão assado. Esse era o momento em que ela tinha a oportunidade de compartilhar suas histórias de vida. Talvez, por esse motivo, até hoje os cheiros e sabores desses alimentos mencionados me remete para novos aprendizados e me leva a refletir: o que será que existe nos sacos de lixo que nós precisamos deixar na porta de nossas casas? E que tal espalhar a semente do amor, construindo mesas de acolhimento, solidariedade e paz?

O encontro ao redor das muitas mesas de minha mãe acontece respeitando gostos e sabores da vida – às vezes doces, outras vezes amargos. Com ela aprendemos a elaborar nossos sabores e dissabores da existência. Neste caso específico, poderia dar muitos nomes para muitas mesas que desfrutei com minha mãe. Foram muitas as receitas e ingredientes produzidos em sua longa caminhada de vida.

Convido você a refletir sobre suas histórias de vida e escolher um nome para sua mesa.

  • Maria Leci Queirozé nutricionista e especialista em saúde pública. Faz palestras para famílias na área de saúde e nutrição em um projeto em Guiné-Bissau. É autora dos livros: A Mesa Está Posta Vivências à Mesa – escrever tem sido uma terapia para a sua vida.
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